domingo, 4 de dezembro de 2011

My Pain Is Real, 2010 (Ali Cherri)

*videoinstalação, três canais

Em um tímido canto na área da exposição videobrasil, durante a mostra Panoramas do Sul, dois monitores, lado a lado, exibindo vídeos semelhantes, conseguem atrair grande atenção da maioria dos espectadores. Não há como passar pela obra sem o choque de visualizar um rosto completamente machucado - o homem em cena é o próprio autor da obra. Com ausência de som ou sequer mesmo legendas, somos atraídos e inevitavelmente motivados a descobrir o motivo de origem para tais feridas.

Com enquadramento simples - apenas um plano fechado estático do rosto de Ali - ao se aproximar, percebemos então a presença de um pequeno cursor, onde este vai lentamente percorrendo o rosto do autor, interferindo na textura da pele do mesmo. Neste momento, a maioria do público, e se não a totalidade, suspira aliviado, reconhecendo que tudo se trata apenas de uma montagem. Entretanto, é neste ponto crucial que provavelmente se concentra o objetivo e sentido da obra. A ausência de trilha sonora já nos leva ao único foco da mesma: a imagem. Não há narrativa ou história a ser contada, e sim apenas o looping do vídeo do início ao fim da “montagem” facial. Considerando o quadro de globalização em que vivemos, Ali Cherri critica de forma subjetiva a nossa atual banalização diante da violência, consequência da enome difusão e recepção da mesma existente nos meios de comunicação atuais.

A tentativa para criação de um contexto pode até existir, imaginando que na verdade o homem em cena já estava ferido, e o cursor apenas retirava a montagem feita para deixá-lo intacto. Porém, ao perceber que de fato não há mais nada para ser contado, ficamos conformados com o fato do filme ser apenas uma montagem, e deixamos de nos preocupar com o estado físico do homem ali retratado. O autor tenta remeter o público – inicialmente no título – a questionamentos e até mesmo testes sobre nossas percepções do que é ou não real, e qual o limite de nossa capacidade de indeferença perante uma situação de aparente sofrimento. Ficamos aflitos ao ver o estado de tal homem, mas logo pensamos aliviados, analisando o cursor, de que se trata de uma montagem. São nestes conflitos de emoções e pensamentos que Ali Cherri tenta nos atingir: será que, sob determinada influência da tecnologia, abandonamos por completo nosso lado humanitário e aceitamos a ideia do ficcional, por mais realista que este o seja na atualidade?

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